Quando Jair Bolsonaro foi eleito, em 2018, Almino — que na
ocasião votou em Fernando Haddad (PT) — disse à Folha de S. Paulo que seria exagero
chamá-lo de golpista.
"Ele era ninguém. Literalmente ninguém",
justifica-se. "Basta dizer que foi deputado num dos períodos em que eu
estava na Câmara e nunca o vi lá. Quando fui entrevistado, disse apenas que não
havia nenhum elemento para se dizer que ele fosse golpista."
Hoje, sua opinião mudou. "Se alguém disser que
Bolsonaro não tem nada a ver com o episódio todo, aquele quebra-quebra [em
Brasília], é um imbecil."
O mais
dramático telefonema
Há muitas fotografias no apartamento de Almino em São Paulo.
"Minha namorada, em todas as fases do nosso relacionamento", diz,
apontando as fotos da esposa, Lygia de Britto Álvares Affonso, falecida há 17
anos.
Entre os retratos, uma foto com o músico Sérgio Britto, dos
Titãs, um de seus filhos, e o registro de sua posse como ministro do Trabalho,
cargo que ocupou entre fevereiro e junho de 1963.
Quase um ano após sua saída da pasta, rélembra Almino, ele
recebeu o mais dramático telefonema da sua vida. Era quarta-feira, 1° de abril
de 1964. Corrido do Palácio das Laranjeiras, João Goulart o convocava para uma
reunião na Granja do Torto.
O clima na residência oficial não podia ser pior. Jango
encarnava o desânimo, com o "terno amarfanhado" e a "barba por
fazer". Estavam ali também Tancredo Neves e outros deputados.
A insurreição militar já tinha se alastrado pelos quartéis,
aderindo à marcha das tropas do general Olímpio Mourão Filho, que haviam
partido de Minas Gerais na manha anterior.
Enquanto se debatia o conteúdo de um manifesto pela
democracia, o general Ladário Telles, comandante do 3° Exército, avisou que o
presidente deveria voar para Porto Alegre, pois Brasília se convertia
rapidamente numa ratoeira.
Ficaram na Granja do Torto apenas Maria Teresa Goulart,
esposa do presidente, e seus dois filhos, João Vicente e Denize. A
ex-primeira-dama conta ao UOL que Almino sempre foi fiel ao presidente:
"Ele esteve presente nos mais difíceis momentos".
O então líder da bancada acompanhou Jango até o aeroporto,
onde dezenas de parlamentares chegavam para abraçar o presidente e dizer
palavras de solidariedade.
"Mas, nada me enganava", lembra Almino no livro
"1964 — Na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart" (Imprensa
Oficial, 2014), lançado por ocasião dos 50 anos do golpe que o levaria ao
exilio. "Por trás da emoção, havia a descrença no amanhã."
Na saída do aeroporto, ele ouviu de Tancredo Neves uma frase
que jamais esqueceu. "Ele disse: Faz 10 anos, eu me recordo da reunião do
presidente Getúlio Vargas com o ministério e logo mais a tragédia [do
suicídio]. Fico a me perguntar se é a última vez também que me despedi do
presidente João Goulart. Eu disse: Tancredo, para de dizer coisas desajustadas.
E ele respondeu: E que você é jovem, não é capaz de perceber que se repetem as
coisas.”
'Três
vezes canalha!'
Depois de se despedir de Jango, Almino seguiu para o
Congresso. Convocada pelo presidente do Senado, Auro de Moura Andrade,
uma sessão extraordinária estava prestes a começar. Ele se acomodou ao lado de
Tancredo.
Logo o deputado Doutel de Andrade trouxe ao plenário uma
circular emitida pelo chefe da Casa Civil, Darcy Fibeiro, informando aos
congressistas que João Goulart voava para Porto Alegre.
"Eu ainda sinto ódio", conta Almino, recordando o
sentimento que o dominou no instante em que Moura Andrade pediu a palavra e
declarou vaga a Presidência da República — alegando falsamente que o presidente
havia abandonado o governo. Na memória do ex-ministro ficaram dois gestos de resistência. A voz de Tancredo
gritando: "Canalha! Canalha! Canalha!'. E o deputado Roge
Ferreira que, valendo-se de sua destreza de atleta, rompeu a barreira da guarda
pessoal e, frente a frente com Moura Andrade, cuspiu nele.
"Foram naquela noite dramática os únicos protestos que
pudemos ter", conta o ex-ministro.
Almino Affonso revela, ainda, uma informação inédita: no
início do regime militar, Castello Branco, ditador de 1964 a 1967, fez chegar a
ele no exilio o recado de que poderia voltar ao Brasil.
Almino se negou: "Agradeci, mas disse que não poderia
fazer isso enquanto tantos dos meus amigos estavam exilados".
Quando Jango morreu, em 1976, na Argentina, seu ex-ministro
do Trabalho já tinha retornado ao Brasil, após passar 12 anos entre a atual
Sérvia (ex-lugoslávia), Chile, Peru e Argentina. "Foi ele que me ajudou a
vencer a briga para conseguir fazer o enterro em São Borja", lembra,
agradecida, Maria Teresa Goulart.
"Os militares não queriam nos deixar cruzar a fronteira
com o corpo. Nunca me esqueço do Almino, sempre leal, mas dizendo a
verdade, sem puxar o saco do Jango."
Na escrivaninha do escritório da última testemunha do golpe
repousam folhas manuscritas por Almino. "É um livro que estou escrevendo
sobre minha história familiar, política e de exílio", conta. "Não sei
se aguento suportar vivo até terminá-la, né?" ri ele.
"É mais que uma autobiografia, mas muito geral.
Essencialmente, tem minha história com minha mulher, com quem vivi desde os 17
anos de idade, 50 anos de casados."
Imagens: Lucas Lima/UOL
Karla Monteiro e Mateus Araújo, Do TAB, no Rio e em São Paulo.
31/03/2024 04h00.
Almino Monteiro Álvares Affonso é neto de Almino Álvares Affonso - "Almino Afonso".