domingo, 6 de setembro de 2026

Escalas de trabalho expõem diferença entre a rotina do trabalhador e a dos políticos

A discussão sobre a escala 6x1, na qual trabalhadores do setor privado trabalham seis dias e têm apenas um dia de folga, ganhou força no país. No serviço público, de maneira geral, predomina a jornada 5x2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso.

Quando a comparação chega ao Legislativo, porém, a realidade é bastante diferente - pelo menos no que diz respeito à realização das sessões parlamentares.

Enquanto milhões de trabalhadores(as) brasileiros(as) enfrentam a escala 6x1, com seis dias de trabalho para apenas um de descanso, a realidade da atividade parlamentar chama atenção pela diferença na frequência das sessões.

No Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas dos Estados e na Câmara Legislativa do Distrito Federal, as sessões concentram-se principalmente entre terça e quinta-feira. Considerando exclusivamente os dias de sessões, essa dinâmica pode ser comparada, de forma ilustrativa, a uma escala de 3x4 - três dias de trabalho (sessões) e quatro dias folga (sem sessões).

É fundamental esclarecer: isso não significa que deputados e senadores trabalhem somente três dias por semana, já que o mandato inclui outras atividades. E há outro ponto que merece atenção, ou seja, a cobrança de presença também segue regras diferentes.

O trabalhador da iniciativa privada que cumpre uma escala 6x1 - trabalha seis dias e folga um - precisa comparecer ao trabalho todos os dias previstos em sua jornada. Faltar sem justificativa pode resultar em consequências trabalhistas, conforme a legislação e as normas aplicáveis ao seu vínculo.

Já no Legislativo, a frequência formal às sessões é regulada pelos regimentos e pelas normas de cada Casa. Assim, a ausência injustificada em uma sessão pode gerar as consequências previstas nessas regras. Ou seja, não se trata de dizer que parlamentar não trabalha nos demais dias, mas de reconhecer que sua presença institucional é cobrada de maneira diferente daquela exigida do trabalhador comum.

E é justamente aí que está o incômodo de grande parte da população, ou seja, quem trabalha seis dias por semana, muitas vezes em jornadas exaustivas, não pode simplesmente escolher quais dias irá comparecer ao trabalho. O trabalhador falta e pode ser penalizado. O trabalhador chega atrasado e pode ser penalizado. O trabalhador precisa cumprir sua jornada para garantir o salário no fim do mês.

Em Almino Afonso-RN, o debate ganha um exemplo concreto. Na última sexta-feira, 4 de setembro de 2026, a sessão da Câmara Municipal não foi realizada por falta de quórum: apenas dois vereadores compareceram. No município, as sessões ordinárias acontecem uma vez por semana.

O episódio pode até estar dentro das regras regimentais, caso as justificativas e demais requisitos legais sejam observados. Mas estar dentro da regra não impede que a sociedade questione a regra, a postura e o compromisso político.

A população que paga impostos, trabalha, produz e sustenta a máquina pública também tem o direito de cobrar presença, responsabilidade, transparência e resultados dos seus representantes.

O que se questiona é a existência de dois pesos e duas medidas na forma como a sociedade encara o trabalho e a responsabilidade de quem é eleito para representá-la.

O debate está colocado, e a cobrança também. Se o trabalhador é obrigado a cumprir uma jornada rigorosa para garantir o próprio sustento, os representantes eleitos precisam estar à altura da responsabilidade que assumiram diante da população.

Não basta ocupar uma cadeira, receber remuneração e exercer prerrogativas. É preciso comparecer, participar e prestar contas à sociedade. O cidadão que paga impostos tem o direito de cobrar presença, compromisso e resultados de quem foi escolhido para representá-lo.

E a cobrança é direta: a mesma classe política que estabelece regras para a vida do trabalhador precisa ouvir a voz de quem enfrenta diariamente a escala 6x1. Não é razoável cobrar sacrifícios de quem trabalha enquanto se toleram privilégios e diferenças tão grandes na vida pública.

O trabalhador merece mais tempo para viver, descansar e estar com sua família. Por isso, a defesa é clara: fim da escala 6x1 e mais respeito a quem sustenta, com seu trabalho e seus impostos, o funcionamento do país.